Células-tronco e camundongos distróficos

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Genética

Mayana Zatz

Geneticista e diretora do Centro
de Estudos do Genoma Humano (USP)
E-mail: mayanazatz.ciencia@gmail.com

Células-tronco e camundongos distróficos

Enquanto batalhávamos pela aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias, os grupos que se opunham repetiam a questão: por que não pesquisar células-tronco adultas? E por mais que eu dissesse que minha equipe já estava trabalhando também com células-tronco adultas, não acreditavam… Pois aqui está o resultado de uma das nossas pesquisas, que vai ser publicada na prestigiosa revista americana Stem Cells.

Nesse trabalho, realizado por minha aluna de doutorado Natássia Vieira e uma equipe fantástica de colaboradores – injetamos células-tronco adultas, obtidas do tecido adiposo humano, em camundongos que têm um tipo de distrofia muscular progressiva. Esse material, descartado após as cirurgias de lipoaspiração, é rico em células-tronco adultas de um sub-grupo especial, chamadas de células-tronco mesenquimais (CTMs).

Em um trabalho anterior, Natassia já havia visto, no nosso laboratório, que CTMs de tecido adiposo (obtido por lipoaspiração) conseguem formar células musculares, células ósseas, cartilagem e é claro – mais células adiposas – para infelicidade dos obesos. E o mais importante, estas células foram capazes de interagir em cultura com células musculares obtidas de pacientes afetados por distrofia. Mas a grande questão ainda era:

O que aconteceria se injetássemos essas células humanas em um camundongo com distrofia muscular?

Para fazer o experimento usamos 21 camundongos de dois meses de idade, chamados de sjl, que têm um tipo de distrofia muscular semelhante à humana. Os animais foram divididos em três grupos de sete. O grupo A foi o controle, não tratado. O grupo B recebeu células não manipuladas — células que foram simplesmente isoladas do tecido adiposo, multiplicadas e injetadas. No grupo C, injetamos células que foram cultivadas antes com substancias que as induzem a formar células musculares. Tanto no grupo B como no C, as células foram injetadas no sangue, por meio da veia da cauda. As questões que queríamos responder com esse experimento eram:

1)Será que células humanas chegariam até o músculo dos animais sem serem rejeitadas pelo camundongo?

Sabíamos que precisávamos injetar muitas células para garantir que algumas delas chegassem até o músculo. E foi isso que fizemos. Uma vez por mês Natassia injetava células humanas na veia da cauda do camundongo. Esperamos dois meses após a última injeção, quando os camundongos completaram nove meses de idade para examiná-los. Tivemos a primeira surpresa. Nos músculos de sete dos catorze camundongos injetados havia uma quantidade grande de células humanas. Ou seja, elas não haviam sido rejeitadas e ainda conseguiram sair da corrente sanguínea, atingindo o músculo.

2) A que grupo pertenciam esses sete camundongos?

Essa foi a segunda surpresa. Só encontramos células humanas naqueles que receberam células não manipuladas, ou seja, indiferenciadas. Isso nunca havia sido comprovado antes. Aprendemos mais uma lição. E aí a pergunta óbvia.

3) Houve alguma melhora clínica nos animais nos quais encontramos células humanas?

Essa foi a terceira e talvez a maior surpresa. Os camundongos nos quais encontramos células humanas mostraram-se mais fortes e mais resistentes. Quando colocados na água, conseguiam nadar por muito mais tempo ou manter-se pendurados a uma corda sem cair (ver vídeo).

Não é preciso dizer que ficamos radiantes com esses primeiros resultados e mais ainda quando esse trabalho foi aceito em uma revista como a Stem Cells, prova do reconhecimento internacional dessas pesquisas. Isso não teria acontecido se a Natássia não contasse com a colaboração de uma excelente equipe, Carlos Bueno Jr., Vanessa Brandalise, Luciana Moraes, Eder Zucconi, Mariane Secco, Miriam Suzuki, Maristela Camargo, Paolo Bartolini, Patrícia Brum e Mariz Vainzof e vários outros, a quem sou muito grata.

O próximo passo vai ser injetar essas mesmas células em cães com distrofia e acompanhá-los por pelo menos um ano. De acordo com os resultados obtidos nos cães poderemos estar próximos de um tratamento para humanos. A grande vantagem do uso de células-tronco retiradas de tecido adiposo é que não faltam voluntários. Na realidade já tenho filas de pessoas oferecendo-se a doar sua gordura em troca de uma lipoaspiração. A grande questão agora é saber se os cães também não irão rejeitar as células-tronco humanas e se terão melhora clínica. Vai ser um período de muita expectativa, é claro.

4) Isso significa que não serão necessárias mais pesquisas com células-tronco embrionárias?

Este será o assunto da próxima coluna. Até lá.

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