Onde começa a vida

Fonte: vejaonline.abril.com.br

Genética

Mayana Zatz

Geneticista e diretora do Centro
de Estudos do Genoma Humano (USP)
E-mail: mayanazatz.ciencia@gmail.com

Onde começa a vida

Volto às questões enviadas por Alexandro, seminarista e estudante do curso de Filosofia, a quem já respondi em ocasião anterior (leia abaixo). Ele me escreveu: Na minha opinião, a vida começa a existir no momento da fecundação, mesmo que o sistema nervoso ainda não esteja formado. A senhora costuma falar sobre os embriões que nunca serão colocados em útero e permanecerão congelados para sempre. Esses poderiam servir à ciência. Mas se esse experimento fosse feito com um de nós, talvez hoje não existiríamos. Quando se escolhe um embrião para servir à uma pesquisa não se acaba — querendo ou não — interrompendo uma vida, mesmo que esta não tenha o sistema nervoso formado?

Viabilidade dos embriões
A impressão que se tem, Alexandro, é que todos os embriões congelados são viáveis. Isso não é verdade. A fecundação é a condição necessária, mas não suficiente para gerar uma vida. É importante lembrar que quem procura as clínicas de reprodução assistida são casais que na sua grande maioria não conseguiram reproduzir naturalmente. Ou seja, em muitos casos, apesar da união entre o espermatozóide e o óvulo, não houve formação de vida. De acordo com o doutor Paulo Perin, um especialista em fecundação assistida, estima-se que somente 2% dos embriões que estão congelados há mais de 3 anos, nas clínicas de reprodução do Brasil, são viáveis. De fato, uma pesquisa publicada recentemente pela doutora Nilka Donadio, outra médica especialista em reprodução assistida, revelou que nenhum dentre quase 200 embriões de má qualidade que haviam sido criopreservados geraram uma vida quando descongelados e implantados em útero.

Vida interrompida
Todos nós existimos porque resultamos de uma união bem sucedida entre o óvulo e o espermatozóide que nos gerou. A recíproca, porém, não é verdadeira. Ou seja, toda árvore resultou de uma semente, mas nem toda semente originará uma árvore, mesmo quando plantada. Nesse caso estamos falando de sementes que não serão plantadas, ou seja, embriões que não terão útero. Na minha opinião não estamos falando de uma vida interrompida, mas sim de uma vida com potencial muito pequeno (que é de apenas 2% no caso dos embriões congelados há mais de três anos), de uma vida que não começou e sem nenhuma chance de ser iniciada.

Os diferentes olhares
Gostaria de comentar uma parábola que ouvi recentemente. Raquel, uma mulher muito pobre, estava passando fome junto com seus filhos quando uma pessoa piedosa lhe deu uma galinha. Mas como ela era muito religiosa, precisava da permissão do rabino antes de matá-la para alimentar seus filhos, já que a galinha não havia sido criada de acordo com os rituais judaicos. Raquel vai então com seus filhos à casa do rabino, chama a sua esposa Sara, e lhe diz: “Por favor, leve essa ave e pergunte ao seu marido se posso usá-la para alimentar meus filhos obedecendo os preceitos judaicos”. O rabino olha então para a galinha, e olha para os livros. Olha para a galinha e olha para os livros. Olha para a galinha e olha para os livros. E depois de muito estudo conclui: “Não, isso seria contra a religião judaica”. Sara, sua esposa, depois de ouvi-lo vai imediatamente ao encontro da pobre mulher e lhe diz: “Sim, Raquel, você pode alimentar seus filhos com essa galinha”. O Rabino, ouvindo isso pergunta perplexo a Sara: “Como você pode ir contra os princípios religiosos?” Muito simples, responde Sara. Você olhou para a galinha e para os livros. Eu olhei para a galinha e para a mulher com seus filhos.

Vida interrompida é a de milhares de crianças e jovens que morrem com doenças degenerativas, para as quais ainda não existe tratamento. É para eles que estou olhando, prezado Alexandro.

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